Pará Leitura Vai-quem-quer ultrapassa uma década de atuação

 

Pensar o papel de uma universidade é se debruçar sobre a educação como uma tarefa que coloca o pesquisador dentro de contextos e desafios múltiplos, os quais demonstram a necessidade de um diálogo que crie pontes e estimule a aproximação e o pertencimento da comunidade em que a Instituição de Ensino Superior (IES) está inserida. É nesse contexto que se encontra o projeto Pará Leitura Vai-quem-quer, que completa onze anos, no próximo dia 25 de outubro.


Idealizado pela professora Izilda Cordeiro, em 2009, a proposta era transformar o contexto educacional da ilha de Cotijuba. A ideia surgiu a partir da dissertação de mestrado que teve como temática “O modelo de gestão educativa no Educandário Nogueira de Farias”. Durante a pesquisa, a docente se aproximou da história, cultura, realidade e costumes dos moradores do espaço.

No processo de levantamento de dados da pesquisa sobre o Educandário, a professora Izilda se deparou com uma história inquietante sobre o passado: as ruínas que hoje guardam a memória de uma instituição e ensino, também guarda a lembrança do período em que prédio era uma Colônia Reformatória, para onde eram enviados os adolescentes em conflito com a lei, que tinham ficado órfãos depois da II Guerra Mundial.

Segundo Izilda, essa memória que habita a ilha, ligada à percepção de que Cotijuba tem diversas dificuldades de manutenção que uma escola pública de qualidade necessita em função de questões que envolvem a dinâmica de acesso ao espaço, estimularam a criação do projeto Pará Leitura Vai-quem-quer. “Na época eu desenvolvia na Uepa uma disciplina de leitura e produção de texto dentro do curso de pedagogia e, ao visitar Cotijuba e conhecer mais de perto a realidade educacional da ilha, percebi que havia uma lacuna em relação ao exercício da cidadania por meio da leitura e isso me tocou profundamente e me deu forças para começar de forma voluntária o projeto, até ele ganhar a força institucional que possui hoje”, afirmou a docente.

Além do incentivo à leitura, a coordenação geral do Pará Leitura Vai-quem-quer realizada pelos professores Manoel Silva Jr, Samara Lourenço, Gabriela Faval, Thais Santos e Paulo de Paula, o projeto tem o intuito de promover a interação entre educadores, educandos e a comunidade ribeirinha e estimular o pensamento crítico entre os envolvidos em relação a pautas do universo educacional nos mais diversos âmbitos, como o letramento, a leitura literária, a educação ambiental e a produção do conhecimento dentro dos processos de sociabilização e partilha do saber.

“Nós priorizamos sempre uma luta pela educação transformadora, principalmente, aquela permeada pela perspectiva da ampliação do saber, tal como pudemos executar por meio da extensão universitária, ou seja, pela aproximação dos acadêmicos até as comunidades no sentido de estabelecer um diálogo entre diferentes tipos de conhecimentos que estão proporcionados tanto pela academia como pelo saber tradicional que envolvem os ribeirinhos. E nesse processo nós encontrarmos novas perspectivas para a eclosão de sabedorias que possam contribuir tanto para a produção do conhecimento científico como, também, para a construção de caminhos que possam levar a solução de problemas reais e concretos que estão inseridos nessas comunidades tradicionais”, comentou o coordenador do Pará Leitura Vai-quem-quer, Manoel Silva Jr.


Estímulo à leitura - Durante onze anos, o Pará Leitura Vai-quem-quer já realizou 180 visitas à Cotijuba com, aproximadamente, 293 pessoas passando pelo projeto desde discentes voluntários e bolsistas, como, também, docentes. O projeto é desenvolvido em média duas vezes por mês na Escola Anexo Pedra Branca e na Associação de Moradores, junto da comunidade ribeirinha de Poção. Atende cerca de 100 a 150 crianças e adolescentes por meio de palestras, oficinas, workshops, leitura compartilhada, contação de histórias, cineclubismo e outros.

“O projeto iniciou para promover extensão aos alunos da Uepa, oportunizando alfabetização e letramento para nossos alunos ribeirinhos, ciclo de palestras, rodas de conversa, brincadeiras lúdicas com o objetivo de enriquecer e complementar as atividades educacionais de nossa comunidade escolar, proporcionando o enfretamento de algumas dificuldades sociais, além de  orientar os jovens com informações sobre o exercício da sua cidadania de forma integrada com o fomento a prática da leitura”, ponderou a diretora e também professora da Escola Anexo Pedra Branca, Lorena Saem.

Já a representante comunitária da comunidade do Poção, na Ilha de Cotijuba, Josimary Coutinho, afirma que “o projeto é importante porque trás pra minha comunidade momentos de interação e lazer por meio da leitura, motivando as crianças e adolescentes a lerem e escreverem ao mesmo tempo que aprendem sobre cultura e exercício da cidadania em um processo onde todos aprendem, o professor que vem da capital e o jovem da comunidade”, reiterou.

Atualmente, o Pará Leitura Vai-quem-quer é um projeto de pesquisa e extensão institucionalizado e vinculado ao Núcleo de Educação Popular Paulo Freire (NEP) há um ano. Porém, a trajetória do projeto possui seis anos de vinculação ao Núcleo de Estudos e Extensão Trilhas Investigativas e Práticas Sociais (Netrilhas), além de três anos autônomos e funcionando como uma pesquisa voluntária por parte de docentes e discentes.

De acordo com a coordenadora discente, Stéffani Mendonça, do sétimo semestre do curso de Pedagogia da Uepa, o Pará Leitura Vai-quem-quer permite o desenvolvimento e um olhar crítico sobre e educação, além de possibilitar o exercício das práticas científicas para quem opta por adentrar a carreira acadêmica. “Conheci o Pará Leitura Vai-quem-quer em 2018 através da Semana Acadêmica de Pedagogia. Era meu segundo ano na graduação e precisava adentrar em algum grupo de pesquisa e esse foi o grupo que chamou a minha atenção logo de início, porque conheci através de dois professores que eu admiro por lutarem fortemente pelo ensino público de qualidade e pela educação do campo/ribeirinha. Além disso, o que motivou a minha participação no grupo foi à linha da Educação Popular através da Pedagogia Social, onde lutamos por uma educação emancipatória na Amazônia”, disse a coordenadora discente.


Pesquisa Científica - O Pará-Leitura Vai-quem-quer se configurou como um projeto que possibilita o exercício de métodos de pesquisa e extensão, que desenvolvem no discente a prática de produção acadêmica de forma pragmática, pois há a possibilidade de ter uma experiência laboratorial a cada visita na ilha de Cotijuba. Durante mais de uma década já foram produzidas, aproximadamente, 30 publicações científicas entre artigos, comunicações e TCCs desenvolvidos por discentes e docentes de vários cursos da Uepa, entre eles, Pedagogia, Matemática, Enfermagem, Educação Física, Secretariado Executivo Trilíngue, e Letras - Língua Portuguesa e Libras .

Uma das discentes passou por uma verdadeira transformação enquanto participou do Pará-Leitura, pois por pouco não desistiu do curso de Pedagogia, antes de entrar para o projeto. “Tivemos vários artigos aprovados em vários eventos, com a minha participação foram apenas dois. Um artigo sobre o uso da cultura áudio visual para as crianças da comunidade ribeirinha do Poção e outro que eu desenvolvi na minha tese sobre a gameficação como ferramenta pedagógica. Dessa forma, vejo o Pará-Leitura Vai-quem-quer como um projeto que permite visualizar a realidade da educação nas ilhas ao redor de Belém em comparação com a capital, por isso eu sempre digo que este projeto me faz amar educar e a profissão que eu tinha escolhido, mas quase desisti. Sendo assim fico muito grata por ter tido a oportunidade de participar todos esses anos”, declarou a recém-formada em Pedagogia na Uepa, Julia Gonzaga.

Outro exemplo é o da professora Gabriela Faval, que entrou no Pará-Leitura Vai-quem-quer ainda discente do curso de Pedagogia da Uepa. Em função da ativa participação, atualmente, faz parte da coordenação e organização do projeto, além do desenvolvimento de diversas pesquisas na área da educação sexual, que foi absorvida pela comunidade de mulheres da ilha de Cotijuba como uma ação de relevância social para a sociabilização de questões que evidenciam relações de gênero e violência sexual, as quais não puderam ser ignoradas pela docente. “Entre 2013 e 2015 foram feitas diversas publicações e apresentações em congressos de pesquisas realizadas dentro do Pará-Leitura Vai-quem-quer, tendo como principais a publicação na revista “A Palavrada” os artigos “A educação sexual ribeirinha prática crítico-filosófica freireana na comunidade do Poção” e “As concepções da sexualidade: relatos de experiências no Projeto Pará Leitura Vai-Quem-Quer”. Como dizia Freire, a educação não transforma o mundo, ela muda as pessoas e as pessoas transformam o mundo. Creio que o projeto faz isso, ele transforma pessoas, lhes mostra que é possível realizar sonhos, que é possível aprender a ler e escrever, a compreender o mundo das letras e esse sonho, quando atingido, muda o mundo em que elas estão e, certamente, teremos profissionais que sairão da academia e retornarão para o Poção para aplicar o que aprenderam e, sem dúvida, pois é isso que muda o mundo”, afirmou a professora.

Além das pesquisas científicas que foram desenvolvidas, o Pará Leitura Vai-quem-quer participou de diversos eventos acadêmicos em âmbitos regionais, nacionais e internacionais, onde foram sociabilizadas as experiências. Destaca-se a ida de discente para apresentar trabalhos no 6º Congresso Brasileiro de Extensão Universitário (CBEU) e no Congresso Internacional sobre Pedagogia, no Marrocos, e as participações nos programas Uepa nas Comunidades e Campus Avançado, que permitiram aos discentes e docentes adentrarem em outras realidades educacionais dos municípios do interior do Estado do Pará. O projeto também desenvolveu eventos acadêmicos e culturais, como a I Mostra Cultural do Pará Leitura, idealizada pelo professor Manoel Jr, além do I Colóquio de Pesquisa e Extensão Pará Leitura Vai-quem-quer.

Texto: Daniel Leite Jr

Foto: Equipe do projeto Pará Leitura Vai-quem-quer