Quatro décadas de compromisso com a formação de educadores no Pará são celebradas pelo curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Pará (Uepa). O curso, ofertado no Centro de Ciências Sociais (CCSE) desponta como um pilar fundamental na construção de um futuro mais justo e humanizado para o estado. Com cerca de quatro mil profissionais formados, o curso reafirma sua marca na educação paraense, atuando em diferentes esferas, da educação básica ao ensino superior, e expandindo sua influência para além dos muros da escola, alcançando ambientes não escolares e movimentos populares.
O curso de Licenciatura em Pedagogia da Uepa foi criado em 1984, por meio da Resolução nº02, de 12 de janeiro, e homologado pelo Decreto nº3.193, de 10 de fevereiro do mesmo ano. Inicialmente, o curso fazia parte da extinta Faculdade Estadual de Educação (Faed), unidade da Fundação Educacional do Estado do Pará (FEP), e teve suas primeiras turmas ingressando em 1987, com três habilitações: Magistério para as disciplinas Pedagógicas do Ensino de 2º Grau; Educação Especial – Deficiência Mental; e Administração Escolar para o exercício nas Escolas de 1º e 2º graus. Vale ressaltar que o curso é mais antigo que a própria Uepa, visto que a FEP só foi transformada na atual universidade em 1993.
Diretrizes, memórias e motivos para comemoração
Ao longo de sua trajetória, o curso passou por três reformulações no Projeto Pedagógico (PPC), nos anos de 1999, 2006 e 2022, demonstrando uma busca constante por atualização e adaptação às demandas sociais e educacionais. Atualmente, o curso oferece turmas em três modalidades: regular, modular e intervalar, abrangendo diversos campi da Uepa e programas como UAB, Forma-Pará e Parfor. O principal objetivo da Pedagogia é formar profissionais para atuarem na docência e gestão da Educação Infantil, nos anos iniciais do Ensino Fundamental e em suas modalidades, além de outros espaços que exijam conhecimentos pedagógicos.
Em uma série de cerimônias e homenagens, a licenciatura mais antiga do CCSE celebra seus 40 anos de existência, com um evento que busca destacar sua história, memórias, saberes e práticas, reunindo a comunidade acadêmica para celebrar essa importante trajetória na educação paraense. “Nosso intuito foi o de ouvir as nossas vozes. Todos os homenageados e integrantes de mesas têm relação com o curso”, observa a coordenadora do curso, Edina Fialho.
Afeto é a palavra norteadora na Pedagogia da Uepa. A escuta de integrantes do curso revela que, para além do discurso, o carinho pela formação e atuação é percebido nos olhos de pedagogas e pedagogos, egressos, calouros e professores do curso. A Pedagogia, para Edina, por exemplo, não se limita ao âmbito profissional. "Eu tenho com a pedagogia, uma relação visceral. Eu tenho uma relação, eu vou falar como mulher uterina, que vem das minhas entranhas. Eu tenho uma relação umbilical, porque eu não me desvencilho da pedagogia onde quer que eu esteja". De acordo com a professora, essa ligação intrínseca se manifesta em todos os âmbitos de sua vida, permeando suas relações pessoais, familiares, afetivas, profissionais e até mesmo sua atuação sindical. Para Edina, a pedagogia é um guia, um farol que ilumina seus caminhos e a impulsiona na busca por uma sociedade mais justa e humanizada.
Educação especial
"A pedagogia é tudo na minha vida, não me vejo fora desse contexto", afirma a professora Maria Joaquina Nogueira, coordenadora do curso de Pedagogia Bilíngue da Uepa e integrante da primeira turma formada na Instituição, demonstrando a profunda conexão que construiu com a área ao longo de sua trajetória. Para ela, a Pedagogia vai além de uma simples profissão, representando a base de sua formação como pessoa.
Desde o início de sua carreira, aos 22 anos, trabalhando com crianças surdas, Joaquina encontrou na Pedagogia um caminho de constante aprendizado e desenvolvimento, impulsionada pelo estudo da ciência da educação e do desenvolvimento humano. Essa paixão a motivou a se aprofundar na área da Educação Especial, campo no qual atua e que a inspira até hoje.
A professora destaca que a Pedagogia a moldou não apenas profissionalmente, mas também em sua essência humana. “Através do contato com meus professores e da vivência universitária, desenvolvi valores como o respeito, a afetividade e a construção de relações interpessoais saudáveis, elementos que carrego comigo até os dias atuais”, enumera. “A importância da Pedagogia na minha vida é inegável, transformando-a e guiando minhas ações como educadora”, conclui.
A decisão de Joaquina por seguir a carreira de educadora teve suas raízes plantadas ainda em sua infância. Morando na zona rural, a professora teve como grande inspiração a sua professora de alfabetização, Maria do Socorro Nogueira. "A professora era muito dedicada, até hoje eu tenho essa professora na memória", relembra Joaquina, evidenciando o impacto positivo que uma educadora dedicada pode ter na vida de seus alunos. A partir dessa experiência, a paixão pela docência floresceu, impulsionada pela admiração que nutria por seus professores durante sua trajetória escolar. A realização do curso Normal no Instituto Orlando Bittar solidificou seu desejo de se dedicar à educação, culminando na aprovação em concurso público da Seduc para lecionar.
O ingresso no Instituto Felippo Smaldone, escola especializada no atendimento a alunos surdos, marcou o início da trajetória profissional de Joaquina. Seu trabalho com bebês surdos, a partir dos oito meses de idade, e a experiência como alfabetizadora de crianças surdas a fortaleceram em sua escolha pela Pedagogia. A vivência no Instituto Smaldone despertou nela um interesse particular pela área da educação especial, impulsionando-a a buscar aprofundamento nesse campo de estudo.
Recado aos futuros pedagogos
A coordenadora do curso fez questão de direcionar um recado aos estudantes que consideram trilhar o caminho da Pedagogia. Para ela, a escolha por essa profissão transcende a simples busca por um diploma ou uma carreira; trata-se de uma decisão de vida pautada por princípios humanizadores e transformadores. “Quem faz Pedagogia não pode se manter indiferente ao abuso de autoridade e às injustiças, é necessário o compromisso intrínseco da área com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária”, disse. O perfil do futuro pedagogo, segundo a professora, é marcado pelo amor às pessoas, pela transformação e pela busca constante do conhecimento.
Aos que se identificam com esse ofício, Edina convida a conhecerem o curso, mergulhando em pesquisas, explorando as diversas áreas de atuação da Pedagogia e alimentando a curiosidade e o desejo de aprender. Ela reforça a importância de cultivar empatia e paciência, essenciais para lidar com a diversidade humana, os diferentes ritmos de aprendizagem e as complexidades do processo educativo.
A atual coordenadora do curso afirma ainda, que é fundamental o pedagogo ser apaixonado pelo que faz, pois o entusiasmo e a dedicação são combustíveis indispensáveis para a docência, permitindo transmitir conhecimento com paixão, inspirar os alunos e construir um ambiente de aprendizagem significativo. Além disso, destaca que ouvir com atenção, acolher diferentes perspectivas e respeitar a individualidade são pilares do desenvolvimento da prática pedagógica.
A professora conclui seu recado com um conselho crucial: “se o compromisso com a dignidade e a entrega não estiver presente, e se a escolha pela Pedagogia for apenas uma questão salarial, não valerá a pena”. Para Edina, a Pedagogia exige entrega, amor pela profissão e compromisso com a construção de um futuro mais humano e promissor.
As comemorações dos 40 anos do curso ocorrem hoje, 10, e amanhã, no auditório Paulo Freire. As mesas serão temáticas, separadas pelo tipo de atuação e dezenas de alunos dos campi da interiorização devem comparecer.