Pesquisa analisa Escola Sem Partido e fundamentalismo religioso

Enviado por Fernanda Martins em Qui, 20/03/2025 - 13:04

As relações entre religião, política e educação estiveram no centro do debate durante o V Seminário de Projeto de Pesquisa do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião (PPGCR) da Universidade do Estado do Pará (Uepa), realizado essa semana, em Belém. Um destaque do evento foi o trabalho da pesquisadora Haíssa Ramos, que analisa o movimento Escola Sem Partido (ESP) e suas ligações com o fundamentalismo religioso no Brasil pós-eleições de 2018.

Em sua pesquisa, Haíssa ressalta que o ESP, que inicialmente se propunha a combater supostas doutrinações políticas em sala de aula, na prática se tornou um veículo para promover visões religiosas conservadoras. Segundo ela, o movimento ganhou força especialmente com o avanço do fundamentalismo cristão nas últimas décadas, alimentado pela polarização política e pelo uso estratégico das redes sociais.

"A suposta neutralidade defendida pelo ESP é ilusória. Por trás dessa narrativa, o que se vê é uma tentativa de impor uma visão religiosa específica, reduzindo o espaço para o diálogo plural e crítico nas escolas", afirmou a pesquisadora.

Haíssa analisa ainda a influência direta de grupos religiosos no legislativo brasileiro, especialmente após 2018. "O fortalecimento desses grupos religiosos na política contribuiu significativamente para a disseminação de discursos conservadores, muitas vezes excludentes e discriminatórios, que encontraram respaldo em propostas como a Escola Sem Partido", explica.

Em entrevista, Haíssa detalhou que uma das principais estratégias utilizadas por grupos religiosos foi se aproveitar do "público cativo de pais e mães cristãos preocupados com a educação de seus filhos", para engajar seus princípios e projetos políticos. Ela observa que inicialmente o ESP combatia supostas doutrinações marxistas, mas posteriormente redirecionou o foco para a "moralidade cristã", especialmente em temas como educação sexual e diversidade religiosa. "Segundo o movimento Escola Sem Partido, esses assuntos não são temas para sala de aula, mas responsabilidade exclusiva da família, o que gera um ciclo de retroalimentação do fundamentalismo religioso", explicou.

Quanto às consequências práticas dessa influência religiosa nas escolas, Haíssa afirma que são "aterradoras": "Cria-se um ambiente escolar de insegurança, onde a maior preocupação está centrada em vigiar e ser vigiado, além de inibir o papel da escola na formação de sujeitos críticos."

Embora a pesquisadora ainda não tenha concluído uma análise específica sobre o contexto do Pará, pois sua pesquisa está em andamento, ela observou informalmente que o Estado acompanhou a tendência nacional nas eleições de 2018, refletindo um ambiente que também pode ter sido profundamente influenciado por valores cristãos.

O seminário, realizado no Centro de Ciências Sociais e Educação (CCSE) da Uepa, também contou com pesquisas sobre outros temas sensíveis à sociedade paraense, como racismo religioso, neopentecostalismo e diversidade de gênero e sexualidade, reforçando a importância do debate acadêmico para compreender e enfrentar os desafios sociais contemporâneos.

 

Texto: Fernanda Martins, jornalista (Centro de Ciências Sociais e Educação - CCSE)
Foto: Sidney Oliveira, fotógrafo (Assessoria de Comunicação da Uepa - Ascom)