Pesquisa de Fonoaudiologia alerta sobre riscos do uso de fones de ouvido

Enviado por Diane Maués em Sex, 24/04/2026 - 10:45

O Curso de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará (Uepa) desenvolveu um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que alerta para os riscos envolvidos no uso inadequado de fones de ouvido. O TCC Impactos Auditivos Associados ao Uso Recreativo de Fones de Ouvido: uma revisão integrativa, desenvolvido pelo curso que formou sua primeira turma em janeiro deste ano, mostra possíveis prejuízos à saúde auditiva da população. O TCC foi feito pelo aluno Levi Alfeu Almeida Lobato Brito, e teve como orientadora, Liliane Dias e Dias de Macedo, professora do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) da Uepa.

 

A pesquisa ganha ainda mais relevância no contexto do Dia Internacional de Conscientização sobre o Ruído, que ocorre anualmente na última quarta-feira do mês de abril, e busca prevenir a população sobre os impactos da exposição a níveis elevados de som. O estudo contribui para ampliar o debate sobre prevenção, destaca a necessidade de hábitos auditivos saudáveis e do uso consciente de fones de ouvido, especialmente entre o público jovem, mais exposto a esse tipo de risco.

 

O grupo de maior vulnerabilidade e foco da pesquisa é o de adolescentes e jovens adultos (12 a 25 anos), que compartilham hábitos de uso excessivo prolongado. A pesquisa apontou que o risco de danos auditivos está diretamente relacionado à intensidade (volume) do som e ao tempo de exposição e que mais de 78% dos jovens utilizam dispositivos de áudio por mais de uma hora diária. Níveis acima de 85 decibéis, considerados prejudiciais quando mantidos por longos períodos, podem ser facilmente ultrapassados por dispositivos pessoais, que alcançam volumes entre 78 e 136 decibéis. Além disso, de acordo com os dados, o uso de fones por mais de uma hora diária já coloca os jovens em risco de desenvolver Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR).

 

O estudo identificou os impactos auditivos do uso recreativo de fones de ouvido, por meio de uma revisão integrativa da literatura nacional e internacional nas bases de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e a PUBMED (National Library of Medicine), no período de 2021 a 2025. Dos 169 artigos encontrados, seis foram selecionados. 

 

Os principais problemas identificados, com o uso prolongado e em volume elevado, foram a Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR), presença frequente de zumbido (transitório ou permanente), sensação de ouvido tampado, hipersensibilidade a sons intensos e alterações na percepção sonora. A exposição excessiva também pode desencadear taquicardia, dor de ouvido, dificuldade de concentração, aumento da pressão arterial, distúrbios gastrointestinais, dor de cabeça, irritabilidade e distúrbios do sono. A exposição ao ruído no início da vida pode tornar os indivíduos mais vulneráveis à perda auditiva com o avanço da idade.

 

“Escolhi o tema diante do crescente número de pessoas que têm perdido a audição devido ao uso recreativo de fones de ouvido. A proposta é conscientizar a população sobre a forma correta de utilização e os impactos do uso inadequado na saúde auditiva, destacando os riscos que essa prática pode trazer quando feita de maneira incorreta”, disse o aluno Levi Brito. “O fone ideal sempre será o headset (fone que cobre toda a orelha). Os demais como o de inserção ou os sem fio também podem ser usados desde que utilizados no volume adequado”, acrescentou.

 

Os estudos revisados indicaram dados preocupantes entre jovens adultos e revelaram que 83,4% apresentaram perda auditiva subclínica, detectada por exames mesmo sem sintomas ainda evidentes, e sendo mais prevalente entre aqueles que utilizavam fones de ouvido para múltiplas finalidades como lazer, música, jogos, educação e trabalho. 

 

PAIR
A PAIR é reconhecida como a segunda causa mais comum de perda auditiva neurossensorial, afetando cerca de 5% da população mundial, o que resulta em impactos físicos, mentais, sociais e econômicos. A estimativa é que mais de um bilhão de jovens e adultos estão sob risco de desenvolver perda auditiva devido à exposição excessiva a sons intensos, como em atividades de lazer, shows, casas noturnas e com o uso crescente de fones, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).   

 

Prevenção
A pesquisa orienta ainda a possibilidade de limitar o volume a 60% da capacidade máxima do aparelho e não ultrapassar 60 minutos de uso contínuo, fazendo pausas regulares e diagnóstico precoce com a realização de exames. A exposição contínua a altos níveis de som pode causar danos auditivos irreversíveis, sendo fundamental promover o uso seguro de fones de ouvido por meio de ações educativas e políticas públicas de conscientização e orientações preventivas, principalmente para adolescentes e jovens adultos, que mesmo conhecendo os riscos, possuem baixa adesão a práticas de proteção. Assim, a Fonoaudiologia assume um papel central no desenvolvimento de estratégias de conscientização sobre práticas de escuta segura. 

 

Curso

O curso de Fonoaudiologia passou a ser ofertado pela Uepa, em Belém, em 2021, com a primeira turma ingressando no segundo semestre do mesmo ano. Atualmente, a graduação conta com cerca de 100 alunos e tem duração de cinco anos. Desde sua criação, a comunidade acadêmica tem participado ativamente de reuniões, capacitações, visitas técnicas e eventos científicos, como congressos e feiras vocacionais. Além disso, desenvolve ações de extensão e campanhas de conscientização como a Agosto Dourado sobre a importância da amamentação, iniciativas voltadas à disfagia e atividades alusivas ao Dia do Fonoaudiólogo.

 

A estrutura física do curso funciona nas instalações do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde-CCBS/Campus II, em Belém, com salas de aulas; salas das especialidades para ações do curso de fonoaudiologia, como o laboratório de habilidades fonoaudiológicas e do Serviço de saúde auditiva, onde são realizadas as aulas práticas de audiologia clínica e os estágios supervisionados em audiologia.

 

Para a fonoaudióloga e coordenadora do curso, Luzianne Fernandes Oliveira, formar a primeira turma de Fonoaudiologia em uma universidade pública da região Norte, com alunos preparados principalmente para atuar no Sistema único de Saúde (SUS) é um marco que transborda orgulho e esperança. “É a concretização de um sonho coletivo, construído com dedicação, desafios superados e compromisso com a educação de qualidade. Cada formando carrega não apenas um diploma, mas a responsabilidade de transformar vidas por meio da comunicação. É o início de uma trajetória que ecoará cuidado, ciência e impacto social”.

 

Texto: Diane Maués, jornalista (Centro de Ciências Biológicas e da Saúde - CCBS/Uepa) 

Foto: Divulgação