O dia 25 de novembro de 2025 amanheceu diferente na capital do país. Centenas de milhares de mulheres negras de todo o Brasil — de diferentes gerações, territórios e trajetórias — tomaram as ruas e ocuparam a Esplanada dos Ministérios para a II Marcha Nacional das Mulheres Negras, sob o lema “Por Reparação e Bem Viver”, para exigir direitos. Entre elas, estavam dezenas de estudantes e professoras da Universidade do Estado do Pará (Uepa), que saíram de Belém no último sábado, 22, após meses de articulação institucional e mobilização coletiva. Para além da manifestação, os relatos de professoras negras da instituição serão transformados em livro.
A participação da Uepa não foi construída do dia para a noite. Em março de 2025, foi criado o Comitê Impulsor da Marcha das Mulheres Negras da Uepa, composto por oito grupos de pesquisa da universidade, entre eles o Grupo de Pesquisa e Estudos Amazônia Antirracista (Geamar), o Grupo de Pesquisa Geoprocessamento, Cartografia e Agrária na Amazônia (Geocarta), Gênero, Feminismos e Sexualidades (Gefes), o Núcleo de Estudos e Extensão Socieducação e Ressocialização da Uepa e Saberes e Práticas Educativas de Populações Quilombolas (Eduq), o Grupo de Pesquisa Juventude, Educação e Sociabilidade (Jeds), e com apoio da vice-reitora da instituição, professora Ilma Pastana. Em junho, o comitê foi oficialmente lançado no Auditório Paulo Freire, no CCSE, em Belém, com presença de representantes de diversos campi da instituição. Segundo a professora Creusa Barbosa, do Geamar, a ação marcou o comprometimento da universidade com a mobilização.
A marcha em Brasília reuniu cerca de 300 mil pessoas, segundo estimativas dos organizadores. O movimento nacional reafirmou bandeiras como reparação histórica, combate ao racismo e à violência de gênero, garantia de direitos fundamentais — moradia, saúde, educação —, proteção dos territórios quilombolas e justiça ambiental, resumindo em “bem viver” a aspiração por dignidade, liberdade e equidade social.
A organização da Uepa resultou numa participação significativa: 58 estudantes e 40 professoras, de oito campi da universidade, vinculadas a cursos como Enfermagem, Saúde Coletiva, Ciências Sociais, Pedagogia e Educação Escolar Quilombola, estavam presentes na marcha. Além disso, o Comitê impulsionou um projeto paralelo de valorização de vozes negras dentro da academia: dez docentes negras escreveram sobre suas experiências como professoras na universidade, e essas narrativas darão forma ao livro Vozes e Silêncios de Professoras Negras na Amazônia, com lançamento previsto para dezembro pela editora da Uepa.
Em Brasília, as representantes da Universidade marcharam, simbolizando a unidade institucional e a força coletiva da universidade na luta antirracista e feminista. Sobre a trajetória até a marcha, Creusa Barbosa contextualizou a criação desse comitê: "acreditamos que a universidade não pode ficar alheia às demandas históricas das mulheres negras. Organizar mobilização, dar visibilidade às nossas professoras negras, às nossas estudantes, construir coletivamente, tudo isso era necessário para que a Uepa chegasse a Brasília não por acidente, mas com consciência política. Estar na marcha é reafirmar que pertencemos, que resistimos, que queremos reparação. Não só simbólica, mas concreta”, defendeu.
A vice-reitora da Uepa, Ilma Pastana, também participou da sessão solene da II Marcha das Mulheres Negras, realizada no Salão Negro da Câmara dos Deputados. Para ela, "reparar é agir no presente para corrigir os efeitos atuais de injustiças históricas que estruturaram a nossa sociedade", para comemorar a grande representação da universidade neste momento histórico.
A Marcha
A II Marcha Nacional das Mulheres Negras representa a retomada e intensificação de um movimento que, há dez anos, marcou a capital federal com a participação de mais de 100 mil mulheres negras em 2015. A edição de 2025 consolida a ampliação da mobilização: segundo organizadoras, o ato busca reunir até um milhão de mulheres, contando com delegações de todos os estados brasileiros, caravanas de movimentos sociais, comunidades quilombolas, ribeirinhas, populações tradicionais, ativistas, estudantes e universitárias. Mais do que uma marcha de um dia, trata-se de um processo de longa duração, envolvendo seminários, debates, oficinas, mobilizações territoriais, todas orientadas pela agenda da reparação histórica e do bem viver — por dignidade, justiça e futuro para as mulheres negras e para o Brasil.
Texto: Fernanda Martins, jornalista (Assessoria de Comunicação do Centro de Ciências Sociais e Educação - CCSE)
Foto: Acervo Pessoal/Creusa Barbosa