A dança do Melody e do Tecno-Melody no ensino de Educação Física

Enviado por Guaciara Freitas em Seg, 29/04/2024 - 11:42

Utilizar um ritmo oriundo das periferias do estado do Pará para desenvolver uma proposta pedagógica voltada ao curso de Educação Física foi a ideia que norteou a pesquisa de Joliene Nascimento Pinto, aluna egressa da graduação de Educação Física da Universidade do Estado do Pará (Uepa). O Arrasta Povo do Pará, a (Re) Existência das Ruas: Possibilidades do Melody e Tecno-Melody a partir das Intersubjetividades Culturais, Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Joliene, está em sintonia com as proposições da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a disciplina de Educação Física (EF), no que se refere a inclusão de danças regionais no currículo escolar. 


Nesse sentido, Joliene Pinto afirma que o fato do Pará ser um estado multicultural, repercute na oferta de uma diversidade de opções, para contribuir no currículo escolar. "Mas o conteúdo das danças no espaço escolar sofre a influência da hierarquização de conhecimentos acadêmicos urbanos cêntricos e eurocêntricos, que invisibilizam o cotidiano da realidade vivida por um povo". Ou seja, entre outras contribuições, o TCC da aluna é incluir na matriz curricular um ritmo periférico.

 

Sob orientação do professor Adnelson Araújo dos Santos, o trabalho, que também contou com apoio do grupo de estudos INcorpoRe (Uepa) e Gipe-Corpo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), foi aprovado com excelência. O TCC pretende promover um diálogo entre corpo, dança e melody paraense nas aulas de Educação Física. 

 

Joliene observou que as danças regionais paraenses que mantêm relação com as questões afro indígenas como carimbó, retumbão e lundu são destaques. Porém, ritmos paraenses que dialogam com os fenômenos das aparelhagens não são abordados como conteúdo na disciplina de E.F. "O que se percebe é que as escolas paraenses são excluídas da vivência do melody, que é recorrente em áreas periféricas, onde também está concentrada a maior parte das escolas públicas", esclareceu. 

 

A egressa do curso de Educação Física da Uepa percebeu a necessidade de visibilizar esse ritmo nas aulas, sistematizando o melody e como este infere e interfere nas camadas populares da sociedade paraense. O estudo ressalta que o ritmo faz parte do cotidiano dos alunos e traz a discussão de "potencialização da (re)existência cultural de uma grande parte do povo paraense". Assim, a aluna buscou uma proposta pedagógica, na qual o melody “tem como finalidade apreender a realidade vivida através de seus ritmos num diálogo pedagógico nas aulas de educação física", disse.

 

Para Joliene, a escola é o espaço onde as aulas de educação física são promotoras da construção do pensamento teórico e a (re) afirmação da identidade cultural do educando. Assim, tanto para a formação acadêmica, quanto para o contexto social, o estudo possibilita a compreensão do fenômeno do melody dentro da sala de aula. "As aulas com a tematização do melody acabam se tornando fundamentais nesse processo de formação do discente, por conta da visibilidade da cultura popular presente nas periferias de Belém, possibilitando o diálogo sobre essa diversidade cultural e disseminando os costumes e valores desta cultura", destacou.

 

Proposta pedagógica 


O objetivo do TCC O Arrasta Povo do Pará, a (Re) Existência das Ruas: Possibilidades do Melody e Tecno-Melody a partir das Intersubjetividades Culturais é trabalhar de forma interdisciplinar com o ensino da Geografia, onde fará cartografias territoriais, os espaços de produção do melody e sua contextualização com a população. "E a interdisciplinaridade com a Língua Portuguesa, para a compreensão da língua em que é constituída através do melody, e que na maioria das vezes são comunicações e/ou dialetos, que só são compreendidos por aqueles que vivenciam o fenômeno do melody", disse. 


Outra forma de comunicação ritmada pelo melody é o corpo, “que manifesta movimentos e corporeidades no encontro de pessoas que partilham da mesma vivência e experiência, expressando-se em um corpo dançante potencializado e potencializante”. Além disso, trabalhar com o conteúdo dança, como objeto de estudo das práticas corporais, favorece a discussão das diferenças regionais da dança dentro da identidade, do seu pertencimento e do seu território, “provocando um excelente debate cultural dentro das aulas de educação física", explicou a pesquisadora.

 

Texto: Diane Maués, jornalista (Centro de Ciências Biológicas e da Saúde - CCBS/Uepa)
Foto: Marcelo Rodrigues, fotógrafo (Assessoria de Comunicação - Ascom/Uepa)